Em Fluxo Continuo

Wednesday, April 23, 2008

Clube Português em SSA: vote para melhorar

Recebi de uma amiga, coloco aí na íntegra. Participe da enquete para ver se o poder público fica sensibilizado a tranformar aquele espaço em algo útil para a comunidade. Sendo na Pituba, é muito provável que até façam isso...

Assunto: Clube Português

A Prefeitura está fazendo uma enquete em seu site www.salvador.ba.gov.br
sobre qual deve ser a destinação correta para a área do finado Clube
Português. Sabem o que está ganhando? Instalação de uma biblioteca!
Imaginem que área espetacular para um espaço cultural, com biblioteca
pública, local para eventos (lançamentos, vernissages, exposições), auditório
para palestras, cursos, etc., e, quem sabe, um barzinho cultural...
Vamos votar. É só abrir o site, clicar e votar. Repassem essa mensagem,
incentivando os amigos a fazerem o mesmo, antes que os 'homens' resolvam
botar lá uma obra qualquer para atender seus interesses políticos ou
partidários.

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Sunday, April 20, 2008

Shows e futebol

Domingo na terra da garoa. Semi-final de campeonato estadual. "U Kutintias" ficou lá prá trás e, pior, na segundona em outros campeonatos :-) Mas o Palmeiras de Luxa sem Edmundo está aí, bem feliz disputando em casa a vaga com o São Paulo, um time mais discreto, mas constante. Na outra, a Ponte desbancou o "Guará", tão simpático e líder durante tanto tempo que até deu pena. Boas partidas de futebol, diferencial desta cidade.

Outro ponto positivo de uma megalópole também costuma acontecer em estádios ou teatros, em arenas - herança greco-romana de um certo pão e circo que a tal civilização adora. São os shows, mega-shows de rock and roll, de heavy metal, de trash metal , de Nu metal, de qualquer coisa que envolva muito rock and roll, guitarras, bateria, baixo e um vocal estridentemente diferenciado. Ainda bem. Gosto desta geração rock & coca-cola. Iron, Ozzy, Snakes, a vida que corre nas veias dos cinquentões e sessentões que ainda ditam o tom do que se ouve. Good.

E no meio do lazer sempre há o trabalho, a Cantareira, o Ibira, um congresso, uma feira, um evento. E pais atirando criancinhas pelas janelas. E o intragável jornalismo tornando sua vizinhança insuportável, com ruidosos helicópteros na janela, com somente um assunto porque alavancou em 46% a audiência. A apresentadora que há pouco era scort girl, aliás aqui é perfeito ver Southland Tales, interrompe o "especialista" criminal no momento da demonstração das gotículas com o luminol para - claro - vender a dieta perfeita que deixará seu corpo perfeito em perfeitos 15 dias.

Que mundo imperfeito é esse que nem vendem na televisão? Quero o meu percentual.

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Thursday, March 06, 2008

Show de Junio Barreto e de Ortinho será domingo


Neste domingo dia 9, às 18h, terá o show de Ortinho e Junio Barreto, no auditório 2 do Ibirapuera. Vindos de Caruaru, trouxeram a mistura erudita característica da boa música pernambucana com um jeito mais que urbano, poético e contemporâneo de cantar.

O saxofonista e flautista Marcelo Monteiro estará tocando, assim como muito provavelmente Simone Soul e Alfredo Bello, ou seja, você ainda ouve o Projeto Cru em outra versão.

O show será R$30,00 e R$15,00, a meia-entrada. O acesso é pelo portão 2 do Ibirapuera, a platéia abre às 17h.

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Wednesday, March 05, 2008

Mariella Santiago é uma das melhores vozes da Bahia


Uma das coisas chatas de não estar em Salvador é não poder ir a um show de Mariella Santiago. Eu a conheci em outro contexto, mas quando a vi em cima de um palco, cantando baixinho e com toda a sua alma, virei mais uma vez fã desta canceriana. Agora, da cantora, da artista, da intérprete.

Se você está na Bahia, se for passar pela Bahia, se chegar perto de Salvador, procure na programação cultural por um show, uma apresentação desta diva. Certamente não se arrependerá.

Friday, February 08, 2008

Matilde, fale-nos sobre o Quênia

Recebi por e-mail do professor Marcos Palacios. Originalmente foi publicado no Espaço Aberto do Estadão. Leia com atenção...mas saiba que sou favorável às quotas para negros nas universidades brasileiras, até que a sociedade reflita e integre sua negritude. E que o senador Barack Obama nasceu e cresceu em um país que durante muitos anos teve quotas e que tem leis muito severas contra discriminações e liberdade de expressão.

Demétrio Magnoli

Nossos racialistas decidiram que não existem brasileiros, mas apenas comunidades expatriadas que coabitam este vasto país. Primeiro, decidiram que somos ''''brancos'''' ou ''''negros''''. Depois, renomearam os ''''negros'''' como ''''afrodescendentes'''', o que supõe que os demais sejam
''''eurodescendentes'''' ou, como preferem alguns deles, ''''italodescendentes'''', ''''hispanodescendentes'''', ''''germanodescendentes'''', etc. A Universidade de Brasília, núcleo da
política de raças, chegou a criar um Centro de Convivência Negra, algo que sugere uma segregação racial do espaço do campus. Eles se exibem, cheios de medalhas acadêmicas, como especialistas em etnias. E exibem a África como um berço único, uma comunidade ancestral, a pátria de uma raça. Pergunto-me por que não falam sobre o Quênia.

Os racialistas daqui conhecem os de lá. Juntos, participam de redes internacionais de ONGs, patrocinadas pelas mesmas organizações e fundações filantrópicas, que promovem incontáveis seminários sobre diversidade, etnia e raça. Eles estiveram todos no Fórum Social Mundial de Nairóbi, no Quênia, há um ano. Duvido que os racialistas daqui não saibam que os de lá não acreditam na existência de ''''afrodescendentes'''', pois reconhecem que não há algo como
uma ''''cultura africana''''. Mas os racialistas de lá, como os daqui, repelem os conceitos de nação e cidadania, dedicando-se, noite e dia, a traçar linhas divisórias entre etnias e a advogar políticas de ação afirmativa baseadas em classificações étnicas.

África, de fato, não existe senão como denominação geográfica. Figuras como uma ''''cultura africana'''' ou ''''africanidade'''' são artefatos ideológicos: a única característica geral da África é a diversidade. Mas essa diversidade se expressa em múltiplos níveis, do pequeno clã a grandes nações. Ela está em fluxo permanente e não pode ser congelada nas categorias étnicas elaboradas
pelos colonizadores, que também são artefatos ideológicos.

Nos tempos coloniais, sob os britânicos, o censo do Quênia adotou o procedimento de classificar os habitantes do país segundo critérios fabricados pela antropologia européia. Depois da independência, a etnia infiltrou-se no jogo político, convertendo-se em fonte de chantagens sem fim das elites tribais em busca de cargos governamentais e sinecuras públicas. Em 1999, quando o regime de Daniel Arap Moi se afundava numa crise terminal, o censo aboliu as classificações étnicas. O Minority Rights Group, ONG britânica financiada, entre outros, pela Fundação Ford, faz campanha ativa no Quênia pela classificação censitária das etnias - e oferece como subsídio o seu próprio quadro étnico do país, que é uma reconstrução atualizada da ''''etnografia científica'''' dos colonizadores.

Sob Jomo Kenyatta e Arap Moi, o Quênia conheceu quatro décadas de governos autoritários que exploraram episodicamente, em seu próprio proveito, a carta das divisões étnicas. Em 1992, Arap Moi incendiou as paixões étnicas no Vale do Rift, a mais diversificada província do país, jogando os nativos kalenjins contra os ''''forasteiros'''', especialmente os kikuyus. O advento da
democracia, em 2002, trouxe um governo amparado numa coalizão partidária interétnica e a promessa de um país para todos os seus cidadãos.
A carta étnica desapareceu momentaneamente da cena institucional, mas ressurgiu pelas mãos das ONGs internacionais. Os kikuyus, que habitam predominantemente as terras férteis da Província Central, formam a etnia mais numerosa e representam cerca de 22% da população queniana. Os racialistas de lá, manipulando inescrupulosamente estatísticas fiscais e de renda, acusam os kikuyus de se apropriarem da maior parcela dos recursos nacionais. Esse argumento, reproduzido à exaustão na mídia queniana, tornou-se um pretexto político eficiente quando a coalizão de governo, devastada pela corrupção e pelas rivalidades entre seus líderes, implodiu em duas facções inconciliáveis.

O presidente Mwai Kibaki é kikuyu. Seu rival, Raila Odinga, é luo. Eles não se lembravam disso quando eram aliados. Em 2006, o senador Barack Obama, que rejeita os conceitos de raça e etnia, visitou o Quênia, terra natal de seu pai. ''''Vocês começam a ver o ressurgimento das identidades étnicas como base para a política'''', alertou, conclamando as pessoas a votarem em programas, não em etnias. Mas, então, Kibaki e Odinga já haviam redescoberto suas ancestralidades e identidades étnicas. De 27 de dezembro para cá, cerca de mil quenianos foram
assassinados e 250 mil se tornaram refugiados internos.

Os manuais de História dizem que as potências européia dividiram a África, a partir da Conferência de Berlim de 1885. Essa é uma idéia curiosa, pois nos tempos pré-coloniais existiam mais de 10 mil entidades políticas na África. Os europeus, efetivamente, provocaram uma brutal unificação da África, comprimindo esses milhares de entidades em poucas dezenas de Estados. Mas o colonialismo durou menos de um século, tempo insuficiente para exterminar a diversidade prévia, que se reinventa incessantemente no interior dos Estados africanos independentes. Essa diversidade é a fonte na qual se saciam os promotores das políticas étnicas.

Uma coisa é reconhecer as diferenças de língua, cultura, crenças e religiões, exigindo que sejam respeitadas, e outra muito distinta é fixá-las na lei e convertê-las em categorias políticas. A primeira atitude decorre do princípio dos direitos humanos. A segunda corresponde a uma operação de poder. As ONGs racialistas fabricam as armas políticas que são usadas nas ''''guerras
étnicas''''.

Não é verdade que os quenianos se estejam matando como selvagens. A verdade é que milícias controladas pelos líderes políticos estão matando selvagemente os quenianos. Não fale sobre cartões de crédito, ex-ministra Matilde Ribeiro.
Fale-nos sobre o Quênia.

Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP. E-mail:
demetrio.magnoli@terra.com.br

Tuesday, January 08, 2008

Jornal britânico “The Guardian” põe Marina Silva entre "50 pessoas que podem salvar o planeta" da BBC Brasil

do O Globo


05/01/2008

A ministra do Meio Ambiente do Brasil, Marina Silva, foi citada neste sábado em uma lista preparada pelo jornal britânico The Guardian com "as 50 pessoas que podem ajudar a salvar o planeta". Segundo o jornal, a lista, preparada por um painel de especialistas, identifica "os 50 homens e mulheres com o poder de nos salvar de nós mesmos". "Todo mundo concorda que uma ação urgente é necessária para evitar uma mudança climática catastrófica, mas quem realmente tem a influência e as idéias para fazer isso acontecer?", diz o Guardian em sua apresentação. No texto dedicado a Marina Silva, o jornal destaca sua história como "filha de um seringueiro brasileiro, passando sua infância coletando látex da floresta amazônica e protestando contra a destruição provocada pelos madeireiros ilegais". "Em uma das grandes histórias políticas, ela passou de analfabeta aos 16 anos à mais jovem senadora do Brasil e agora é a mulher mais capaz de prevenir a total ruína da Amazônia", diz o texto. O jornal comenta que, sob sua gestão no ministério, o desmatamento na Amazônia caiu 75%, e vastas áreas de floresta foram destinadas a comunidades indígenas. "Mas o futuro, diz Silva, é arriscado. A única maneira de evitar uma perda no longo prazo é com ajuda internacional", diz o jornal, citando uma declaração da ministra: "Não queremos caridade, é uma questão da ética da solidariedade". A ministra é a única latino-americana da lista, que traz ainda nomes como os do ex-vice-presidente americano Al Gore, da primeira-ministra alemã, Angela Merkel, do geneticista americano Craig Venter, do prefeito de Londres, Ken Livingstone, e até mesmo do ator norte-americano Leonardo DiCaprio. A foto da ministra é uma das três escolhidas para ilustrar a chamada para a lista na capa do jornal, ao lado de Leonardo DiCaprio e da ambientalista Wangari Maathai, ex-ministra-assistente do Meio Ambiente do Quênia e Nobel da Paz de 2004.

O maior prêmio das Nações Unidas na área ambiental, o Champions of the Earth (Campeões da Terra) de 2007, foi entregue nesta quinta-feira (19 de abril de 2007) em Cingapura. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, uma das sete personalidades premiadas, esteve representada na cerimônia pelo embaixador do Brasil em Cingapura, Paulo Alberto da Silveira Soares. Além de Marina Silva, receberam o Campeões da Terra de 2007: o ex-vice presidente dos Estados Unidos, Al Gore; o príncipe Hassan Bin Talal, da Jordânia; Jacques Rogge, do Comitê Olímpico Internacional; Cherif Rahmani, da Argélia; Elisea "Bebet" Gillera Gozun, das Filipinas; e, Viveka Bohn, da Suécia. Simbolizado por uma escultura de metal reciclado, assinada pelo queniano Kioko - que representa os quatro elementos fundamentais à vida: sol, ar, terra e água -, o Campeões da Terra contempla pessoas que tenham contribuído significativa e reconhecidamente na proteção e gestão sustentável do meio ambiente e dos recursos naturais. A atuação de Marina Silva na proteção da Amazônia, nos últimos quatro anos, e a queda estimada de mais de 50% na taxa do desmatamento da região entre 2005 e 2006, foram fundamentais na decisão do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) de lhe homenagear.


Monday, August 06, 2007

NO FLY DAY - 18 DE AGOSTO DE 2007


O Objetivo O Objetivo do NO/FLY DAY é fazer um ato de protesto da população (um ato pacífico e a-partidário) contra a incompetência do governo federal, agências e empresas aéreas para dar uma solução ao problema aéreo que já vem dando claros sinais de colapso muito antes do acidente da GOL e, depois de nada feito, culminando com o acidente da TAM dia 17 de julho.
O Ato Este ato de protesto será um dia "greve de passageiros" em todo o Brazil - NO/FLY DAY (18 de Agosto). Com isso mostraremos aos governantes e responsáveis por este caos, que o público não é bobo e sabe se organizar. Em São Paulo, faremos uma marcha do Ibirapuera a Congonhas em homenagem às vitimas.


Razão Esse protesto é a única forma da população dar uma demonstração organizada e forte sobre o absurdo que estamos vivendo: As empresas aéreas não fazem nada por terem interesses econômicos em jogo, as agências estão corrompidas e ineficientes, o congresso atrapalhado e submisso, e o governo federal apático e inábil. E nós, os usuários do sistema, temos como única forma de protesto gritar nos balcões das empresas aéreas (o que não resolve nada) e colocar notas / cartas nas colunas de leitores dos jornais.

Participe! Se você mora fora da Capital (SP)
Faça um ato de protesto nesse dia e não viaje de avião. Convença um amigo ou parente a fazer o mesmo, e diga a ele/ela para convencer o próximo.

Se você mora na Capital (SP)
Além de não voar nesse dia venha ao obelisco do Ibirapuera Sábado, 18 de Agosto, as 15hrs. As 16 hrs iniciaremos uma marcha pela Washington Luis até a cabeceira da pista de Congonhas, local do acidente da TAM. Venha de camiseta branca. No local prestaremos uma homenagem as vítimas dos vôos TAM 3054 e GOL 1907.

Crise Aérea - Entrevista Marilena Chauí

Marilena Chauí


Era o fim da tarde. Estava num hotel-fazenda com meus netos e
resolvemos ver jogos do PAN-2007. Liguei a televisão e "caí" num canal que exibia um incêndio de imensas proporções enquanto a voz de um locutor dizia: "o governo matou 200 pessoas!". Fiquei estarrecida e minha primeira reação foi típica de sul-americana dos anos 1960: "Meu Deus! É como o La Moneda e Allende! Lula deve estar cercado no Palácio do Planalto, há um golpe de Estado e já houve 200 mortes! Que vamos fazer?". Mas enquanto meu pensamento tomava essa direção, a imagem na tela mudou. Apareceu um locutor que bradava: "Mais um crime do apagão aéreo! O avião da TAM não tinha condições para pousar em Congonhas porque a pista não está pronta e porque não há espaço para manobra! Mais um crime do governo!". Só então compreendi que se tratava de um acidente aéreo e que o locutor responsabilizava o governo pelo acontecimento.
Fiquei ainda mais perplexa: como o locutor sabia qual a causa do acidente, se esta só é conhecida depois da abertura da
caixa preta do avião? Enquanto me fazia esta pergunta e angustiada desejava saber o que havia ocorrido, pensando no desespero dos passageiros e de suas famílias, o locutor, por algum motivo, mudou a locução: surgiram expressões como "parece que", "pode ser que", "quando se souber o que aconteceu". E eu me disse: mas se é assim, como ele pôde dizer, há alguns segundos, que o governo cometeu o crime de assassinar 200 pessoas?
Mudei de canal. E a situação se repetia em todos os canais: primeiro, a afirmação peremptória de que se tratava de mais um episódio da crise do apagão aéreo; a seguir, que se tratava de mais uma calamidade produzida pelo governo Lula; em seguida, que não se sabia se a causa do acidente havia sido a pista molhada ou uma falha do avião. Pessoas eram entrevistadas para dizer (of course) o que sentiam. Autoridades de todo tipo eram trazidas à tela para explicar porque Lula era responsável pelo acidente.
ETC.
Mas de todo o aparato espetacular de exploração da tragédia e de absoluto silêncio sobre a empresa aérea, que conta em seu passivo com mais de 10 acidentes entre 1996 e 2007 (incluindo o que matou o próprio dono da empresa!), o que me deixou paralisada foi o instante inicial do "noticiário", quando vi a primeira imagem e ouvi a primeira fala, isto é, a presença da guerra civil e do golpe de Estado. A desaparição da imagem do incêndio e a mudança das falas nos dias seguintes não alteraram minha primeira impressão: a grande mídia foi montando, primeiro, um cenário de guerra e, depois, de golpe de Estado. E, em certos casos, a atitude chega ao ridículo, estabelecendo relações entre o acidente da TAM, o governo Lula, Marx, Lênin e Stálin, mais o Muro de Berlim!!!


1) Que papel desempenhou a mídia brasileira - especialmente a televisão - na "crise
aérea" ?
Meu relato já lhe dá uma idéia do que penso. O que mais impressiona é a velocidade com que a mídia determinou as causas do acidente, apontou responsáveis e definiu soluções urgentes e drásticas!
Mas acho que vale a pena lembrar o essencial: desde o governo FHC, há o projeto de privatizar a INFRAERO e o acidente da GOL, mais a atitude compreensível de auto-proteção assumida pelos controladores aéreos foi o estopim para iniciar uma campanha focalizando a incompetência governamental, de maneira a transformar numa verdade de fato e de direito a necessidade da privatização. É disso que se trata no plano dos interesses econômicos.
No plano político, a invenção da crise aérea simplesmente é mais um episódio do fato da mídia e certos setores oposicionistas não admitirem a legitimidade da reeleição de Lula, vista como ofensa pessoal à competência técnica e política da auto-denominada elite
brasileira. É bom a gente não esquecer de uma afirmação paradigmática da mídia e desses setores oposicionistas no dia seguinte às eleições: "o povo votou contra a opinião pública". Eu acho essa afirmação o mais perfeito auto-retrato da mídia brasileira!
Do ponto de vista da operação midiática propriamente dita, é interessante observar que a mídia:


a) não dá às greves dos funcionários do INSS a mesma relevância que recebem as ações dos controladores aéreos, embora os efeitos sobre as vidas humanas sejam muito mais graves no primeiro caso do que no segundo. Mas pobre trabalhador nasceu para sofrer e morrer, não é? Já a classe média e a elite... bem, é diferente, não? A dedicação quase religiosa da mídia com os atrasos de aviões chega a ser comovente...
b) noticiou o acidente da TAM dando explicações como se fossem favas contadas sobre as
causas do acontecimento antes que qualquer informação segura pudesse ser transmitida à população. Primeiro, atribuiu o acidente à pista de Congonhas e à Infraero; depois aos excessos da malha aérea, responsabilizando a ANAC; em seguida, depois de haver deixado bem marcada a responsabilidade do governo, levantou suspeitas sobre o piloto (novato, desconhecia o AIRBUS, errou na velocidade de pouso, etc.); passou como gato sobre brasas acerca da responsabilidade da TAM; fez afirmações sobre a extensão da pista principal de Congonhas como insuficiente, deixando de lado, por exemplo, que a de Santos Dumont e Pampulha são menos extensas;
c) estabeleceu ligações entre o acidente da GOL e o da TAM e de ambos com a posição dos controladores aéreos, da ANAC e da INFRAERO, levando a população a identificar fatos diferentes e sem ligação entre si, criando o sentimento de pânico, insegurança, cólera e indignação contra o governo Lula. Esses sentimentos foram aumentados com a
foto de Marco Aurélio Garcia e a repetição descontextualizada de frases de Guido Mântega, Marta Suplicy e Lula;
d) definiu uma cronologia para a crise aérea dando-lhe um começo no acidente da GOL, quando se sabe que há mais de 15 anos o setor aéreo vem tendo problemas variados; em suma, produziu uma cronologia que faz coincidir os problemas do setor e o governo Lula;
e) vem deixando em silêncio a péssima atuação da TAM, que conta em seu passivo com mais de 10 acidentes, desde 1996, três deles ocorridos em Congonhas e um deles em Paris - e não dá para dizer que as condições áreas da França são inadequadas! A supervisão dos aparelhos é feita em menos de 15 minutos; defeitos são considerados sem gravidade e a decolagem autorizada, resultando em retornos quase imediatos ao ponto de partida; os pilotos voam mais tempo do que o recomendado; a rotatividade da mão de obra é intensa; a carga excede o peso permitido (consta que o AIRBUS acidentado estava com excesso
de combustível por haver enchido os tanques acima do recomendado porque o combustível é mais barato em Porto Alegre!); etc.
f) não dá (e sobretudo não deu nos primeiros dias) nenhuma atenção ao fato de que Congonhas, entre 1986 e 1994, só fazia ponte-aérea e, sem mais essa nem aquela, desde 1995 passou a fazer até operações internacionais. Por que será? Que aconteceu a partir de 1995?
g) não dá (e sobretudo não deu nos primeiros dias) nenhuma atenção ao fato de que, desde os anos 1980, a exploração imobiliária (ou o eterno poder das construtoras) verticalizou gigantesca e criminosamente Moema, Indianópolis, Campo Belo e Jabaquara. Quando Erundina foi prefeita, lembro-me da grande quantidade de edifícios projetados para esses bairros e cuja construção foi proibida ou embargada, mas que subiram aos céus sem problema a partir de 1993. Por que? Qual a responsabilidade da Prefeitura e da Câmara Municipal?





2) Como a sra. avalia a reação do Governo Lula à atuação da mídia nesse episódio ?
Fraca e decepcionante, como no caso do mensalão. Demorou para se manifestar. Quando o fez, se colocou na defensiva.
O que teria sido politicamente eficaz e adequado?
Já na primeira hora, entrar em rede nacional de rádio e televisão e expor à população o ocorrido, as providências tomadas e a necessidade de aguardar informações seguras.
Todos os dias, no chamado "horário nobre", entrar em rede nacional de rádio e televisão, expondo as ações do dia não só no tocante ao acidente, mas também com relação às questões aéreas nacionais, além de apresentar novos fatos e novas
informações, desmentindo informações incorretas e alertando a população sobre isso.
Mobilizar os parlamentares e o PT para uma ação nacional de informação, esclarecimento e refutação imediata de notícias incorretas.


3) Em "Leituras da Crise", a sra. discute a tentativa do impeachment do Presidente na chamada "crise do mensalão". Há sra. vê sinais de uma nova tentativa de impeachment ?
Sim. Como eu disse acima, a mídia e setores da oposição política ainda estão inconformados com a reeleição de Lula e farão durante o segundo mandato o que fizeram durante o primeiro, isto é, a tentativa contínua de um golpe de Estado. Tentaram desestabilizar o governo usando como arma as ações da Polícia Federal e do Ministério Público e, depois, com o caso Renan (aliás, o governador Requião foi o único que teve a presença de espírito e a coragem política para indagar porque não
houve uma CPI contra o presidente FHC, cuja história privada, durante a presidência, se assemelhou muito à de Renan Calheiros). Como nenhuma das duas tentativas funcionou, esperou-se que a "crise aérea" fizesse o serviço. Como isso não vai acontecer, vamos ver qual vai ser a próxima tentativa, pois isso vai ser assim durante quatro anos.

4) No fim de "Simulacro e Poder" a sra. diz: "... essa ideologia opera com a figura do especialista. Os meios de comunicação não só se alimentam dessa figura, mas não cessam de instituí-la como sujeito da comunicação ..Ideologicamente ... o poder da comunicação de massa não é igual ou semelhante ao da antiga ideologia burguesa, que realizava uma inculcação de valores e idéias. Dizendo-nos o que devemos pensar, sentir, falar e fazer, (a comunicação de massa) afirma que nada sabemos e seu poder se realiza como intimidação social e cultural... O que torna
possível essa intimidação e a eficácia da operação dos especialistas ... é ... a presença cotidiana .. em todas as esferas da nossa existência ... essa capacidade é a competência suprema, a forma máxima de poder: o de criar realidade. Esse poder é ainda maior (igualando-se ao divino) quando, graças a instrumentos técnico-cientificos, essa realidade é virtual ou a virtualidade é real..." Qual a relação entre esse trecho de "Simulacro e Poder" e o que se passa hoje ?
Antes de me referir à questão do virtual, gostaria de enfatizar a figura do especialista competente, isto é, daquele é supostamente portador de um saber que os demais não possuem e que lhe dá o direito e o poder de mandar, comandar, impor suas idéias e valores e dirigir as consciências e ações dos demais. Como vivemos na chamada "sociedade do conhecimento", isto é, uma sociedade na qual a ciência e a técnica se tornaram forças produtivas do capital e na qual a posse de
conhecimentos ou de informações determina a quantidade e extensão de poder, o especialista tem um poder de intimidação social porque aparece como aquele que possui o conhecimento verdadeiro, enquanto os demais são ignorantes e incompetentes. Do ponto de vista da democracia, essa situação exige o trabalho incessante dos movimentos sociais e populares para afirmar sua competência social e política, reivindicar e defender direitos que assegurem sua validade como cidadãos e como seres humanos, que não podem ser invalidados pela ideologia da competência tecno-científica. E é essa suposta competência que aparece com toda força na produção do virtual.
Em "Simulacro e poder" em me refiro ao virtual produzido pelos novos meios tecnológicos de informação e comunicação, que substituem o espaço e o tempo reais - isto é, da percepção, da vivência individual e coletiva, da geografia e da história - por um espaço e um tempo reduzidos a um única dimensão; o
espaço virtual só possui a dimensão do "aqui" (não há o distante e o próximo, o invisível, a diferença) e o tempo virtual só possui a dimensão do "agora" (não há o antes e o depois, o passado e o futuro, o escoamento e o fluxo temporais). Ora, as experiências de espaço e tempo são determinantes de noções como identidade e alteridade, subjetividade e objetividade, causalidade, necessidade, liberdade, finalidade, acaso, contingência, desejo, virtude, vício, etc. Isso significa que as categorias de que dispomos para pensar o mundo deixam de ser operantes quando passamos para o plano do virtual e este substitui a realidade por algo outro, ou uma "realidade" outra, produzida exclusivamente por meios tecnológicos. Como se trata da produção de uma "realidade", trata-se de um ato de criação, que outrora as religiões atribuíam ao divino e a filosofia atribuía à natureza. Os meios de informação e comunicação julgam ter tomado o lugar dos deuses e da natureza e por isso são
onipotentes - ou melhor, acreditam-se onipotentes. Penso que a mídia absorve esse aspecto metafísico das novas tecnologias, o transforma em ideologia e se coloca a si mesma como poder criador de realidade: o mundo é o que está na tela da televisão, do computador ou do celular. A "crise aérea" a partir da encenação espetacularizada da tragédia do acidente do avião da TAM é um caso exemplar de criação de "realidade".
Mas essa onipotência da mídia tem sido contestada socialmente, politicamente e artisticamente: o que se passa hoje no Iraque, a revolta dos jovens franceses de origem africana e oriental, o fracasso do golpe contra Chavez, na Venezuela, a "crise do mensalão" e a "crise aérea", no Brasil, um livro como "O apanhador de pipas" ou um filme como "Filhos da Esperança" são bons exemplos da contestação dessa onipotência midiática fundada na tecnologia do virtual.

http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/446501-447000/446655/446655_1.html